Ando percebendo que meu corpo e minha mente anseiam por viver uma vida além do trabalho.
Isso é uma coisa que eu comecei a refletir desde que eu voltei a morar em São Paulo no final de 2023, sobre o que é ter uma vida além do trabalho. A vida inteira eu me vi dedicada em estudos e carreira, quase não saía com amigos, meu lazer era limitado a assistir filmes e séries. Eu lembro que quando eu estava no fundamental e início do ensino médio eu até tinha outros hobbies: fotografar, visitar blogs e tumblr, aprender algo novo de HMTL ou de criar conteúdos em blogs, ler livros, criar coisas, desenhar, pintar... Eu ficava nas redes sociais também mas era de uma forma diferente de hoje, tinham mais textos. Acho que você que está lendo esse post eu imagino que seja de uma época quase igual a minha, deve ter navegado bastante na internet dos anos 2000 ou 2010.
Quando eu entrei no ensino médio meus hobbies reduziram um pouco, afinal eu tinha cursos aos sábados, escola pela manhã, trabalho de tarde e algum outro curso de noite (que eu consegui pagar graças ao trabalho como jovem aprendiz), então não me sobrava muito tempo. Mas mesmo assim eu ia em cinemas, lia livros, escrevia em blogs, fotografava. Mas ali eu já criava uma pressão em mim sobre a minha vida profissional.
Entrei na faculdade de Turismo e as coisas ficaram mais corridas, eu tinha muitos outros projetos da faculdade, fiz amigos mas ainda não saía muito. Os nossos tempos juntos eram na faculdade. Depois começa período de estágio e TCC e cada um vai ficando sem tempo. Eu já tinha apenas o blog alguma vez ou outra durante o ano. Meus hobbies foram sendo substituído em ficar em redes sociais e ver Netflix.
Enfim, depois veio 2020, pandemia e depois mudei pra São Paulo para estudar Design. Fiz a faculdade, estagiei, fui contratada efetiva, mudei pra Manaus, continuei trabalhando remotamente, voltei pra São Paulo e trabalhando na mesma empresa com salário maior. Acontece que alguns meses trabalhando eu comecei a abrir os olhos para outras áreas da vida e fui me perguntando: o que é ter uma vida além do trabalho?
Naquele momento eu estava em São Paulo, longe da minha família há poucos meses, longe do meu namorado há mais de ano, me via trabalhando praticamente 7/7 sem tempo para nada. Meu lazer: ver Netflix. Que aliás nem lazer era, na verdade era uma forma de eu conseguir escapar de tudo o que eu estava pensando ou sentindo e me concentrar em qualquer história de ficção. Eu só queria qualquer coisa que me tirasse da realidade e as séries faziam isso. Acontece que, se você trabalha com computador o dia todo e todos os dias, o descanso/ lazer não é pra ser mais telas.
Lembro que foi nessa época que eu comecei a imaginar como que seria uma vida além do trabalho, como é ter tempo pra sair, para cuidar da casa, para fazer qualquer coisa que queira, pra ir no salão, para ver os amigos. Eu não sabia pois tinha pouco disso. Eu reservava um dia no mês pra ter uma noite de jogos com um grupo de amigos, e só. Desde então eu vislumbrava viver além do trabalho, viver para mim. Eu não conseguia encontrar sentido em nada que não fosse relacionado a trabalho, é a carreira que importava e era mais valioso. Até aquele momento.
Me mudei para Portugal há pouco mais de um ano e tinha consciência de que eu teria que "começar do zero" e trabalhar em outra área que não fosse a minha, morar em casa compartilhada e limitar um pouco o meu padrão de vida. Consegui um emprego num restaurante e estou lá desde então. E após alguns meses eu me vi novamente estando no trabalho grande parte do meu tempo, há dias em que eu fico 14h na empresa. 14 HORAS! E não é uma vez ou outra no mês, são algumas vezes na semana e o tempo mais comum que eu passo na empresa é de 10h. Fora que já teve mês que eu tive só uma folga por semana. E não, eu não ganhei extra por isso.
Eu dificilmente janto com meu namorado, pouquíssimas vezes tenho folga junto com ele, raramente conseguimos sair juntos, meu tempo para cuidar da casa é curto pois eu fico cansada e tenho pouco tempo durante o dia. Tudo isso ganhando um salário mínimo. Durante o inverno foi mais difícil, era nublado o tempo todo, chuva todos os dias e o dia todo, frio, anoitecia muito cedo, nosso quarto e a casa tinha muito vazamento de água e, consequentemente, muita umidade.
Não quero descrever aqui só o lado negativo da coisa, tá? Há pessoas que estão numa situação muito muito pior do que a minha, eu tenho total consciência disso. Então as dificuldades que estou passando agora não são tão ruins, é completamente possível de superar. Primeiro quis apresentar um contexto de como que foi surgindo esse questionamento e essa necessidade de se ter uma vida além do trabalho. E eu não acho que eu esteja numa situação ruim também, eu sou muito grata a tudo que estou vivendo no momento e graças a isso somado aos 3 anos de terapia e meu amadurecimento que eu expandi a minha visão para outras áreas da vida que não sejam trabalho.
Resistência física
Trabalhando no restaurante eu adquiri resistência física. Consigo andar muito por aí, há um ano atrás pra subir uma ladeira ou andar 1km ou menos eu tinha muita dificuldade, chegava a quase desmaiar na rua. Eu estava muito sedentária. Hoje eu ando vários km e sinto apenas um leve cansaço, mas nada que possa me impedir de continuar caminando.
Aprendi a me comunicar mais.
Estar exposta a todo momento num ambiente em que vai muitas pessoas, lidar com muita gente, ter que falar o tempo inteiro eu acabei meio que me acostumando a conversar. Antes eu tinha bloqueio de falar as coisas, tinha medo. Hoje em dia eu falo com mais facilidade, perdi o medo e agora até prefiro que as coisas sejam mais claras e ditas na cara, sem enrolação.
Não me magoo muito fácil
Eu era muito sensível à situações e a comentários, hoje em dia se há algum problema ou conflito eu paro e analiso como vou solucionar e parto pra ação. Não fico mais ansiosa, com medo ou desesperada, preciso de uma solução e é isso que vou atrás. Aprendi a ser o tipo de pessoa que: se você tiver algum problema comigo, pode falar; quer me criticar? pois fale; tá estressado com o que eu fiz? fala pra mim. É que no ambiente de restaurante a gente tá ali o tempo inteiro num estresse, na correria e que se a gente guardar pra si tudo o que está sentindo só piora as coisas. Somos ensinados ali a entender que é o estresse do trabalho, depois que sai dali acabou, siga sua vida e amanhã estaremos aqui de novo e o que é de ontem ficou no ontem. É claro que cada caso é um caso, mas assim... Eu não vou ficar guardando mágoas de fulano que fez tal coisa e eu me estressei, é tipo "fode-se, não vou me desgastar com isso".
Eu sei que esse ponto é meio delicado, mas pensa que a gente fica menos sensível às situações de estresse, é como construir uma casca grossa, não é qualquer coisa que vai abalar a gente. Os problemas começam a ficar pequenos e simples, só pra vir algo muito grande pra derrubar.
Perdi o medo de falar inglês
E qualquer outro idioma. Falei errado? Dane-se, eu tô ali pra atender a uma necessidade do cliente: fazer com que o prato e a bebida que ele quer chegue na mesa dele. Pra isso eu tenho que anotar o pedido, responder as dúvidas sobre o cardápio e entregar a comida e bebida, só. Não temos espaço pra ficar pensando e analisando se eu estou falando com ou sem sotaque, o cliente tem que me entender e eu tenho que entender ele, acabou
Enfim, esse post não está fazendo muito sentido, né? São mil assuntos dentro de um texto só. Mais uma vez, eu só queria apresentar um contexto. Na minha cabeça faz sentido, calma.
É que na terapia hoje surgiu uma observação, que estou num processo de perda por não estar mais trabalhando na minha área. Eu tenho ambições: queria trabalhar com design remotamente, em agências ou grandes marcas (multinacionais, talvez) ou trabalhar em escritório também, eu queria essa vida de volta. E eu tinha essa vida em São Paulo. Mas naquela época eu só trabalhava e eu só olhava para uma área da vida: carreira profissional. Apesar de eu já me questionar e sentir a necessidade de ter uma vida além do trabalho, eu ainda considerava que aquilo era mais importante do que outras áreas da vida.
Depois de um ano aqui em Portugal, mesmo o trabalho ocupando grande parte do meu dia, eu pude experienciar vários momentos que me fizeram ver que há outras áreas e que a vida não é só carreira profissional. Há outras áreas da vida que trazem sentido também.
- Nos dias que eu estava de folga eu podia jantar com meu namorado, a gente assistia algo juntos, era um alívio ver ele chegar do trabalho e eu poder dar um abraço nele. Aquele momento leve juntos antes de dormir que a gente fica olhando pro nada rindo e conversando sobre qualquer coisa, é algo como: "eu pude lhe dar um abraço, jantar juntos, agora estamos indo dormir juntos e eu posso lhe dizer boa noite".
- Nos dias de folga eu pude sair de casa depois de meses de inverno e ver o sol, caminhar na rua, olhar as pessoas, ver que a cidade está voltando a ter turistas de novo, traz movimento pro dia a dia. Poder só andar na rua e tomar um café por aí é gratificante.
- Nos dias de folga eu já me peguei pensando em quão satisfatório é eu estar limpando o quarto e organizando as coisas. É como se naquele momento eu fosse grata por ter tempo pra cuidar do meu lar.
- Nos dias de folga que eu não tenho planos pra nada, é tão bom ter essa sensação de que eu tenho o dia todo livre pra fazer o que eu quiser, qualquer coisa. E eu simplesmente só ficar pintando uma tela que eu comprei, um dia vou terminar de pintar aquele quadro.
- Nos dias de folga era uma sensação tão boa poder tomar aquele banho relaxante, fazer as unhas e simplesmente relaxar.
- Nos dias de folga é quando consigo ligar pra minha mãe e a gente toma café juntas. E quando ela tá de folga lá e eu também? É conversa pra mais de duas horas no telefone!
- Teve dois dias de folga que decidimos com meu namorado que iríamos viajar pra Vigo na Espanha. Viajar é tão bom, traz aquela sensação de que há mais vida além da que você vive, né?
Esses são poucos os momentos que eu tive ao longo dos últimos meses e a cada momento desse que acontecia eu imaginava como seria ter mais disso. Por conta dos meus dias serem todos diferentes todos os dias e eu ter folgas sempre diferentes, é mais difícil criar rotina pra qualquer coisa. Então esses momentos se tornam mais escassos.
E a partir do instante que eu começo a experienciar isso eu amplio o meu olhar para essas outras áreas da vida: o lazer, saúde, relacionamentos, amizades... A vida é muito mais que trabalho! E é isso que tenho buscado ultimamente e que eu vou levar mais em conta nas minhas próximas decisões. Já não penso tanto em qual empresa quero construir carreira, eu quero trabalhar num lugar que me dê folgas junto com as do meu namorado, que eu possa estar em casa para jantar junto com ele e um lugar que eu não ultrapasse as 8/9h diárias de trabalho.
As minhas preferências agora são outras, o sentido na minha vida não é só o trabalho, tem muito mais que isso: há pessoas, há lugares, há momentos, há tranquilidade.
Sei que esse assunto é longo, tinha muito mais coisas que eu queria falar sobre, nem falei ainda sobre as redes sociais. Mas ao longo do tempo eu venho escrever mais sobre isso pois as decisões que estou tomando para o meu futuro estão muito relacionadas a essas outras áreas da vida e também quero ir registrando por aqui. Aliás, me diz uma coisa, como que anda a sua vida além do trabalho? Tem vivido?
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